A telemedicina, a inteligência artificial e outras modernidades estão aproximando todos os brasileiros de exames e tratamentos de qualidade.

 

Até poucos anos atrás, quando deparava com um caso mais complicado, o médico de família Enrique Barros não tinha muitas alternativas. Encaminhava o paciente a um especialista na capital do estado sem nenhuma previsão de quando o exame seria concluído. Atendendo em Santa Maria do Herval, pequeno município gaúcho de pouco mais de 6 mil habitantes a cerca de 80 quilômetros de Porto Alegre, Barros nem sempre dispunha da estrutura ou dos equipamentos necessários para fazer determinados diagnósticos.

Mas hoje a realidade é bem diferente. Graças a um programa chamado Telessaúde, o médico consegue se comunicar com profissionais de 15 especialidades. O aconselhamento ocorre de três formas: 1) por telefone 2) por meio de videoconferência 3) e através de uma plataforma virtual por onde são enviadas imagens e laudos.

De acordo com a dificuldade do caso e o método escolhido para fazer o contato, a recomendação para o tratamento pode sair no mesmo dia ou em até 72 horas. Uma revolução.

“Isso me dá uma segurança tremenda e muito mais conforto para atender no meio rural”, conta Barros. “Em geral, os médicos fogem do interior porque se sentem isolados e inseguros para fazer um diagnóstico e um tratamento adequados, mas agora nós temos uma garantia de qualidade”, reflete.

Barros cita o exemplo de pacientes com suspeita de melanoma (um câncer de pele agressivo), comuns na região de colonização alemã e trabalho rural. “Quando é melanoma, nós tiramos. Mas há muitos episódios em que há dúvidas se é um caso em que vale a pena fazer o procedimento ou se estamos machucando a pessoa desnecessariamente”, relata.

Pois a detecção que antes levava meses ou até anos agora é resolvida em poucos dias. “Tiro uma foto, mando para o Telessaúde e em três dias tenho uma resposta dizendo se devo fazer a retirada ou encaminhar a um hospital maior.”

Implementado no país pelo governo federal a partir de 2007, o Telessaúde encontrou grande penetração na Região Sul graças a projetos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das pioneiras em telemedicina. Antes obrigados a recorrer a centros maiores, os profissionais do interior acabavam inflando as filas do SUS e alimentando as longas listas de espera.

Hoje, muitos pacientes podem ser tratados em sua própria cidade após a conversa do médico local com o especialista. “A parte que nos cabe é identificar o que está errado, delimitar a área do problema e, se não der para resolver com os recursos daqui, pedir ajuda a outro profissional”, diz Barros.

Além de facilitar o diagnóstico a distância, o programa conta também com o RegulaSUS, sistema que busca reduzir as filas priorizando casos graves e garantindo que os mais simples sejam resolvidos no próprio município e acompanhados remotamente por um especialista, se necessário. Segundo dados da UFRGS, após a implementação do sistema, cerca de 60% dos casos não precisaram mais ser encaminhados a grandes hospitais, desafogando o déficit de consultas – a fila que já existia foi cortada quase pela metade, de 170 mil para 90 mil pacientes.

Além do Rio Grande do Sul, desde julho esse serviço também está disponível nos estados de Alagoas, Amazonas, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

 

 

Para além da telemedicina: a inteligência artificial

Pouco a pouco, outras tecnologias que permitem reduzir o tempo de espera e aumentar a assertividade das condutas vão se inserindo e replicando pelo país. Se a telemedicina leva atendimento de qualidade para lugares remotos, grandes hospitais começam a utilizar a inteligência artificial para indicar, com maior precisão, os tratamentos adequados para cada paciente.

Essa evolução é nítida principalmente no campo do câncer. Quem faz esse trabalho, por exemplo, é o Watson, uma plataforma de computação cognitiva desenvolvida pela IBM. Ele realiza uma busca em bancos de dados da ciência médica mundial para encontrar estudos e evidências recentes que se relacionem aos casos mais desafiadores.

No ano passado, o Hospital do Câncer Mãe de Deus, em Porto Alegre, tornou-se o primeiro da América do Sul a se valer desse recurso. E, desde maio, uma nova tecnologia baseada nos serviços do Watson também está à disposição dos médicos: o Oncofoco, criado pelo Fleury Medicina e Saúde em parceria com a IBM.

O Oncofoco faz uma análise do DNA do paciente e investiga possíveis mutações genéticas relacionadas a tumores. “Ele é indicado a pacientes que têm câncer de maior complexidade e não respondem a tratamentos-padrão, ajudando a definir a melhor terapia para essas situações”, explica a médica Jeane Tsutsui, diretora de negócios do Fleury.

O sequenciamento genético, por si só, é outra inovação que vem facilitando a vida de médicos e pacientes – ele já estava disponível para testes em áreas como psiquiatria, neurologia, cardiologia pré e neonatal. A oncologia, no entanto, é a primeira a unir a genômica e a inteligência artificial.

A novidade é que, além de inspecionar o DNA, há um passo seguinte no qual os dados do paciente são submetidos ao Watson, que faz uma varredura nas pesquisas internacionais para encontrar exemplos que sejam relevantes para a mutação encontrada. No caso do Oncofoco Ampliado, o teste mais completo, a tecnologia faz uma investigação de até 366 genes relacionados a tumores sólidos, buscando na sequência terapias específicas e inovações pelo planeta que possam ajudar aquele paciente.

“A oncologia é uma área em que o conhecimento científico vem crescendo de forma extremamente rápida. Há novas mutações e tratamentos que a cada dia são descritos e, sem a tecnologia, seria necessária uma quantidade de horas muito elevada para absorver todo o conhecimento. A inteligência artificial permite um cruzamento rápido de todas essas informações”, resume Jeane. “Além disso, por causa do envelhecimento populacional, temos uma incidência cada vez maior de câncer entre os brasileiros, o que faz com que essa seja uma área prioritária”, completa.

A diretora do Fleury e outros especialistas ressaltam, porém, que a tecnologia deve ser encarada como um suporte ao diagnóstico e à tomada de decisões. “Hoje muito se fala da inteligência artificial com o potencial de substituir o profissional em algumas situações”, observa Jeane. “Nossa posição é a de que ela agrega muito, mas a decisão final sempre vai ficar com o médico”, afirma. A receita do sucesso está na aliança entre a sensibilidade humana com o poder de processar informações das máquinas.

 

 

Tecnologia na ponta dos dedos

O fato é que a saúde já entrou na era da hiperconexão digital. Não é coisa do futuro, não. É presente. Isso vale tanto para tecnologias de ponta, como o Watson, quanto para aquelas mais acessíveis ao cidadão, caso de aplicativos de celular.

De olho nos avanços na área, o Conselho Federal de Medicina publicou em fevereiro deste ano uma resolução que regulamenta os apps de consultas domiciliares, apelidados de “Uber da Medicina”. Na época, o principal aplicativo da área já contava com mais de 2,7 mil médicos cadastrados e realizava cerca de mil atendimentos mensais.

Segundo Chao Lung Wen, professor de telemedicina da Universidade de São Paulo, as novas tecnologias irão revolucionar a relação entre médico e paciente. “Entre 2020 e 2030 teremos a década da saúde personalizada e conectada”, visualiza.

Wen acredita que nos próximos dois anos irão crescer bastante os serviços de tele-homecare, monitoramento e avaliação de pacientes em suas próprias residências. O especialista afirma, aliás, que o Brasil não fica atrás em termos de inovação tecnológica. “O que nos falta é a organização do serviço. É preciso que as operadoras e o Ministério da Saúde comecem a fazer isso de forma efetiva”, analisa.

A telemedicina encurta tempos e distâncias, permitindo que boa parte das consultas e tratamentos seja feita na casa do paciente. “Hoje, de todos os recursos que o médico usa para fazer uma avaliação, mais de 15 equipamentos já são conectáveis em um smartphone, até mesmo o ultrassom”, conta Wen. “E não falamos de coisas caríssimas. Felizmente, dispositivos e programas estão ficando mais baratos.”

Para o professor, além dos investimentos em tecnologia, é preciso progredir também em algo muito mais básico: a educação sobre saúde no país. “Nosso maior gargalo não é a tecnologia, mas usá-la de forma eficiente”, reforça.

Por um lado, falta treinamento para que os médicos conheçam e façam bom uso dos métodos e possibilidades que se abrem com o meio tecnológico. Por outro, a própria sociedade ainda carece de conhecimentos sobre cuidados básicos.

“Nós caminhamos para uma falência do sistema de saúde porque temos gente demais doente”, lamenta. O especialista acredita que a solução é combinar tecnologia, informação e conscientização mirando a prevenção de doenças. “O melhor caminho para o país é usar a nosso favor as vantagens oferecidas pelos smartphones sem deixar de capacitar os cidadãos a cuidarem de si”, defende Wen.

Até porque existem situações completamente evitáveis ou controláveis com orientações e ajustes no estilo de vida. A inovação em saúde não avança sem a participação ativa dos médicos e dos pacientes.

 

 

Mais tecnologias que estão a serviço dos brasileiros

1. Robô Laura: é um software de gerenciamento que aumenta a eficiência dos hospitais: identifica surtos, reduz erros e avalia o estoque de sangue.

2. Freestyle Libre: à prova d’água, o dispositivo fica acoplado ao braço do diabético monitorando a glicose sem necessidade de picadas.

3. Teste de hepatite C: rápido, pequeno e barato, o sensor criado na Unesp diminui o tempo de detecção da doença para até seis minutos.

 

 

O que pode chegar à população muito em breve

1. Cadeira de rodas inteligente: é a Weelie, desenvolvida por uma startup nacional. Controlada por expressões faciais, ela ajuda sobretudo tetraplégicos, que podem ir para qualquer lado usando apenas um movimento da boca, bochechas, olhos, nariz e até da língua.

2. Exame precoce para Alzheimer: cientistas da Universidade Federal de São Carlos criaram um teste de sangue que pode identificar a doença ainda no início. O processo dura 30 minutos e mede os níveis de uma proteína específica. Por ser uma desordem progressiva, a descoberta precoce permitiria prevenção e manejo mais eficazes.

3. Ponte entre o médico e o paciente: criado por outra startup brasileira, o sistema TNH Health usa inteligência artificial para compilar respostas de médicos e solucionar dúvidas de pacientes – tudo online! Com uma base de dados, é capaz de acompanhar gestações e pacientes recém-saídos do hospital, enviando orientações.

 

 

 

Com informações do Site da SAUDE - ABRIL (21/11/2018)