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Saúde do futuro exigirá integração tecnológica, novas formas de governança e foco no paciente, afirma Marco Antônio Bego

Especialista defende que o sucesso da inovação dependerá da capacidade do sistema de saúde de se adaptar às ferramentas emergentes.

A transformação digital da saúde vai muito além da adoção de novas tecnologias. Para que os avanços realmente gerem valor para pacientes, profissionais e sistemas de saúde, será necessário desenvolver novos modelos de governança, regulação, financiamento e incorporação de inovação. Essa foi a principal mensagem da palestra magna apresentada por Marco Antônio Bego, diretor executivo do Instituto de Radiologia (InRad) e do Núcleo de Inovação Tecnológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (InovaHC), durante o XI Fórum ABIIS.

Ao abordar o tema ‘A Saúde do Futuro’, Bego disse que o setor vive uma mudança estrutural na forma de cuidar das pessoas. Segundo ele, a saúde deixa de ser baseada em episódios isolados para se tornar cada vez mais contínua, conectada e orientada por dados.

O especialista explicou que a crescente disponibilidade de informações clínicas, biomarcadores, dispositivos conectados, inteligência artificial e ferramentas digitais está transformando a relação entre pacientes e profissionais de saúde, criando novas possibilidades de monitoramento, prevenção e tomada de decisão.

“Nesse contexto, os dispositivos médicos deixam de ser apenas dispositivos isolados e passam a integrar plataformas de cuidado. Cada vez mais estarão conectados a outras tecnologias e a outros sistemas. Isso vai desde o diagnóstico por imagem até a cirurgia robótica. O sistema não apenas mede, mas sugere caminhos. E, a partir do momento em que faz recomendações, passa também a assumir responsabilidade sobre essas recomendações. Essa talvez seja uma das mudanças mais significativas que estamos vivendo”, afirmou.

Para Bego, a evolução tecnológica já permite que sistemas deixem de apenas coletar e analisar dados para também apoiar decisões clínicas e executar determinadas tarefas. No entanto, a velocidade da inovação traz novos desafios para hospitais, profissionais de saúde, indústria e reguladores. Um dos principais é a capacidade de absorção das tecnologias pelo sistema de saúde. Segundo o especialista, muitas instituições ainda enfrentam dificuldades para adaptar processos, treinar equipes e incorporar novas ferramentas de forma efetiva.

Além disso, a crescente integração entre diferentes soluções tecnológicas torna mais complexa a definição de responsabilidades. “Quando uma tecnologia passa a integrar uma plataforma de cuidado, já não é tão simples determinar quem responde por cada decisão. Onde termina a responsabilidade do fabricante? Onde começa a responsabilidade do hospital? Qual é o papel do profissional? Essas fronteiras estão ficando menos claras. E isso exige novos modelos de avaliação e governança”, ressaltou.

Outro tema abordado foi a necessidade de evolução dos modelos regulatórios. Bego defendeu que a supervisão das tecnologias em saúde deve acompanhar todo o ciclo de vida das soluções, especialmente em um cenário de uso crescente de inteligência artificial, algoritmos adaptativos e sistemas capazes de evoluir continuamente. “A regulação deixa de ser apenas fiscalização e passa a ser também um mecanismo de geração de confiança. Quem compra uma tecnologia precisa ter segurança de que ela foi avaliada adequadamente e continuará sendo monitorada ao longo do tempo”, afirmou.

O diretor do InovaHC também chamou atenção para a importância do compartilhamento de dados entre hospitais, fabricantes, reguladores e demais integrantes do ecossistema de saúde. Para ele, a interoperabilidade será fundamental para garantir monitoramento, melhoria contínua e maior efetividade das inovações.

Sobre modelos de financiamento da saúde, Bego afirmou que o setor caminha para estruturas mais orientadas por resultados, evidências e compartilhamento de riscos, substituindo gradualmente modelos focados exclusivamente na aquisição de produtos e procedimentos.

O especialista terminou a participação com uma provocação. “Como faremos com que toda essa transformação realmente melhore a vida das pessoas? No final, essa é a pergunta mais importante. Se uma tecnologia não melhora a vida das pessoas, ela perde seu propósito”, concluiu.